quinta-feira, 25 de maio de 2017

Meu estágio, minha vida

Há cerca de dois ou três anos eu costumava escrever bastante sobre os sufocos que passava na universidade. Falava muito sobre minhas dúvidas, meus medos, minha inadequação ao ambiente de estudos e à engenharia. Eram posts carregados de drama e chorume, bastante condizentes com a Larissa neurótica e desesperada daquele tempo. Entretanto, esses anos de desespero passaram. Adquiri maturidade o suficiente para aprender a estudar, a prestar atenção no que valia à pena e deixar pra lá o que não valia, aprender o ~outro lado da moeda da engenharia~ no meu intercâmbio na Alemanha e, principalmente, aprender que eu não era burra. Esta talvez tenha sido minha grande descoberta nesses últimos dois anos acadêmicos. Fui dessas mulheres (que são muitas!) que estão na área e acham que não estão aptas. Que existem homens que podem fazer mais que eu e melhor que eu. 

Tem alguns dias que ainda me pergunto se estou na área certa, mas é uma dúvida muito fraca. Já apanhei e aprendi muito. Já entendi e fortaleci o que tive facilidade. E assim vem seguindo o baile. Atualmente estou no meu último semestre da universidade e, por conta disso, venho passando por uma das minhas maiores "provações" acadêmicas: o famigerado estágio. Em tempos de crise, nós não estamos tendo muito luxo de escolher a empresa que queremos estagiar, então nossa professora orientou que no primeiro estágio que aparecesse e que algum de nós fosse chamado, que a gente aceitasse. E foi assim que fui parar em uma retífica de motores. Ou de um jeito mais popular: uma oficina especializada em motores. 

Amanhã completo a minha primeira semana na retífica e queria deixar aqui algumas impressões. Primeiro de tudo aconteceu o que eu achava que ia acontecer: me dei conta que na prática eu não sei de nada mesmo. Meus colegas que estagiaram antes de mim disseram que o sentimento foi o mesmo. A gente vê tanta teoria sobre tanto material diferente (plásticos, cerâmicas, metais e compósitos) que no final das contas a sensação é que a gente só sabe o básico do básico. E é a verdade, né? Criamos essa ideia que quando saíssemos da faculdade seríamos merecedores de bons empregos porque carregamos uma carga grande de conhecimento. RI. SOS. Gente, a gente não sabe de nada. A vida real é muito além do que aquelas provas e aulas enfadonhas. Experiência que é importante a gente não tem. SOS. Eu poderia entrar aqui no mérito de como a universidade só nos prepara pra ciência, mas vou deixar isso pra outro post.

A segunda impressão é que, bem, não é uma impressão. Eu sou a única mulher no recinto. Trabalho com basicamente oito mecânicos e confesso que me senti intimidada. Muito intimidada. Tem um colega meu de curso que também está estagiando lá, mas nos últimos dois dias ele adoeceu e não pode ir, então fiquei um pouco nervosa de ter lidar cuzomi sozinha. Só que para minha surpresa eles foram bastante receptivos. Riram MUITO da minha falta de jeito operando certas máquinas, do fato de eu ter 0 força (hehe), de eu não saber nem pegar em uma furadeira (eles já fizeram questão de corrigir isso) e de eu estar sempre espreitando para aprender o serviço. Eles não tem medo de me colocar para fazer as coisas, sabe? E acho isso muito legal, apesar de só faltar fazer xixi de tanto medo de fazer coisa errada. Vida que segue. Aprendi tanto nessa primeira semana que fiquei chocada. Apesar de ter que viajar todo dia para o interior e passar 2h em transporte (somando ida e volta), não me arrependo. Sofro pra acordar cedo, mas acho muito gratificante no final do dia o tanto de coisa que aprendi só de estar presente naquele local.


A terceira impressão é que o estereótipo que eu tinha de um mecânico foi completamente destruída. Os mecânicos da retífica CHEIRAM BEM. KKKKK Eu sei que é uma coisa aleatória de se falar, mas na minha cabeça mecânico era sujo, fedorento e do mal. Eles são sujos, mas não fedem e não são do mal. São brincalhões. Talvez pelo fato de eu ser mulher eles, inclusive, se sintam confortáveis para falar da família deles. Dois já fizeram isso e adorei. Muito mais do que máquinas, esse trabalho requer lidar com pessoas porque é delas que irei extrair conhecimento. Tenho uma professora que desde o terceiro período fala pra gente "colem no peão porque o peão é quem sabe o que acontece ali" e é uma realidade. Hoje meu coração quase morre enquanto conversava com Sr. Zé Antônio e ele me dizia que trabalhava há 25 anos na empresa e que tinha decidido mudar para aquela cidade essa semana porque a filha ia começar a universidade e ele tinha conseguido um "Minha casa, minha vida". Fiquei pensando nos meus privilégios, na minha falta de conhecimento, na perspectiva do meu salário comparado ao daquele homem que sabe TANTO. Não é justo. 

E a quarta e última impressão é que eu nunca me senti tão capaz de aprender. Dois mecânicos estavam me acompanhando enquanto eu fazia umas correções nas bielas de um Mercedes e um deles falou "você é bem curiosa, né? E aprende muito rápido". Foi o suficiente para me dar aquele boost confidence que tanto faltava. Eu posso me sentir muito inútil ali, mas aquelas pessoas estão dispostas a me ensinar e isso é um ganho absurdo. Sou curiosa e, de fato, aprendo com facilidade porque eu sempre estou querendo dar o meu melhor. Posso me atrapalhar algumas vezes, mas isso de aprender a acreditar em mim foi uma das lições que tirei da universidade, então é algo que estou tendo que relembrar todos os dias. 


São 180h que preciso cumprir. Vou carregar uns três meses de serviço pela frente. Espero que a experiência seja enriquecedora em muitos sentidos e que aquelas pessoas, no final do meu estágio, saibam o quão importantes foram para a minha formação. 


6 comentários:

  1. Daqui 3 meses você vai estar contando como tudo foi, você vai ver! <3

    Limonada (antigo Novembro Inconstante)

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  2. Que bacana essa sua experiência com o estágio! Espero que esses três meses sejam de muito aprendizado e contato com os colegas que te ensinam. Sempre fui curiosa por esse tema, e adoro furadeiras! hahaha. Parabéns pelo curso, espero que termine sem nenhuma dúvida de que era o que queria mesmo, ou que foi uma boa experiência :)

    beijão!

    um velho mundo

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  3. Na minha rua tem uma oficina dessas comuns, e olha, não tem homem cheiroso!!! Todos estão sempre sujos, falam palavrão demais e usam umas roupas tão esculhambadas... kkkkk

    Parabéns pelo estágio, pelo conhecimento que você está ganhando e continue sendo essa pessoinha curiosa. É essa vontade de aprender que faz da gente uma pessoa melhor.

    Ah! Também tive a oportunidade de trabalhar num lugar onde eu era a única mulher da equipe e achei maravilhoso. O clima era descontraído, a gente ria bastante e se sentia confortável para contar coisas pessoais.

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  4. Vi agora seu comentário kkkkk

    Vamos ser migas!!!!! ❤❤❤

    Eu sou libriana, já cheguei a pesar uns 48kg com 1,70m, e atualmente sou apenas uma pobre concurseira desempregada (e babá do meu sobrinho durante a tarde).

    Beijos!!

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  5. Quando comecei meu primeiro (e único estágio), senti exatamente a mesma coisa: a faculdade não tem nada a ver com a prática. A gente só aprende o básico da teoria e na realidade temos que nos virar. No Brasil, existe essa concepção totalmente errada de que faculdade é feita pra preparar pro mercado de trabalho, quando na verdade deveria ser um ambiente de estudos e pesquisa. Não é a toa que a produção acadêmica no Brasil é uma porcaria comparada a outros países. A gente só faz pelo diploma que, infelizmente, é o que as empresas cobram mais do que tudo.

    Que bom que eles colocam você pra fazer as coisas sem duvidar da sua capacidade. No meu trabalho também fazem isso e acabo vendo que não sou tão inútil quanto penso, HAHAH.

    Já faz um tempo que você escreveu esse post então imagino que tenha mais coisas pra contar sobre o estágio. Espero que esteja indo tudo bem. ♥

    Beijinhos.

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  6. eu faço engenharia de produção, estou no primeiro ano (minha universidade é anual) e já passei pelo sentimento "sou muito burra" e "sou muito inteligente" em questão de segundos. é uma batalha e tanto, porque eu estudo e trabalho, então a rotina é corrida e as horas de estudos são nos finais de semana, ou seja: vida social? é de comer?
    mas eu tô muito feliz com o curso que escolhi. é difícil? é, mas não impossível! sei que falta muito pela frente ainda, mas já da pra sentir a satisfação ter escolhido minha futura profissão.

    beijos!

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